10.31.2005

Opinião






“Já se percebeu que os argumentos do passado para legitimar uma candidatura presidencial funcionam contra quem insiste em invocá-los. É sobretudo isso que ameaça comprometer irremediavelmente a passagem de Mário Soares à segunda volta, no caso de Cavaco não ganhar logo à primeira. E que o sujeita, mas também ao PS, à humilhação de ficar atrás de Manuel Alegre. Se nunca foram evidentes as razões que levaram Soares a recandidatar- -se à presidência, tentando um remake anacrónico da sua passagem por Belém, o equívoco tornou-se agora indisfarçável. Entre o desejo secreto de Soares, os cálculos tortuosos do PS, as ilusões alimentadas pela orfandade da velha corte soarista e dos conversos provenientes da candidatura de Zenha e do eanismo, criou-se uma rede de cumplicidades sem outro cimento que o da nostalgia de um tempo irrepetível. Um tempo fora do tempo e onde, forçosamente, a nostalgia já não é o que era. Da nostalgia antifascista resta hoje um cerimonial kitsch em que a legitimidade presidencial continua a ser encarada como um monopólio exclusivo da esquerda. Desse ponto de vista, só a esquerda asseguraria a normalidade democrática e a estabilidade das instituições, património ameaçado pela eleição de um Presidente de direita ou sem galardões lustrosos de antifascismo. Ora, o esgotamento desta retórica passadista não só favorece o campo que se propõe combater como lhe concede o privilégio de não correr quaisquer riscos na batalha. Daí, também, o unanimismo indigesto que rodeia a candidatura de Cavaco (e que roça por vezes a indecência), dispensando-o de ousadias que soem de forma menos maviosa aos ouvidos dos que o escutam em êxtase. E quando o director de um jornal de referência, onde seria suposto vigorar ainda algum espírito crítico e de imparcialidade editorial, saúda o "Cavaco Vintage 2005", é de temer o efeito da embriaguez.”


Vicente Jorge Silva in
Diário de Notícias, 30 de Outubro de 2005

10.28.2005

Rápido, rápido... (III)

Caso Moderna


José Braga Gonçalves saiu em liberdade condicional

Rápido, rápido... (II)

LusaRádio: OTA e TGV - Apresentação da calendarização "para breve" - ministro

Rápido, rápido... (I)

O Governo rapidamente aprova o TGV

Leia-se no Expresso online:

“A ligação do TGV poderá ser reduzida de quatro para duas linhas entre Portugal e Espanha, com quatro paragens entre Lisboa e Porto: Ota, Leiria, Coimbra e Aveiro. As alterações constam de uma nova versão do projecto, que o Governo prevê apresentar no próximo mês.
 
Segundo noticia hoje o jornal «Público», o anúncio de uma decisão política sobre a Rede de Alta Velocidade será feito depois de o Governo revelar os seus projectos para o aeroporto internacional da Ota, cujos contornos principais deverão ser conhecidos nos primeiros dias do próximo mês. Na segunda quinzena de Novembro será a vez do TGV.
 
O jornal escreve também que a Rave - Rede de Alta Velocidade, entidade pública responsável pelos estudos relativos ao TGV, foi mandatada pelo anterior Governo social-democrata para apresentar um trabalho sobre a dupla utilização da linha de Madrid, o que não fez até ao momento.
 
O projecto da linha Lisboa-Madrid deverá estar concluído apenas em 2015, podendo mesmo deslizar para 2017, adianta o «Jornal de Negócios». A data prevista era 2010, mas o Governo português vai assumir na próxima cimeira luso-espanhola, que as datas fixadas em 2003 para as ligações ibéricas em alta velocidade ferroviária na Figueira da Foz «são irrealistas». A linha Porto-Vigo, que deveria ser a primeira a ficar concluída em 2009, pode mesmo cair, uma vez que o Executivo português considera «não existir tráfego que justifique o investimento numa linha de alta velocidade».”

10.25.2005

Aves Raras II: O País em pânico




The Birds, Alfred Hitchcock

Come-se bom pão e bom peixe em Peniche...

10.24.2005

A ciência no Porto



O projecto “Porto, cidade da ciência” promovido pela câmara em parceria com dois cientistas de renome da cidade do Porto, Prof. Maria de Sousa e Prof. Sobrinho Simões, teve como principal reivindicação um"Autocarro VivaCidade" para facilitar o transporte gratuito a estudantes e investigadores que trabalhem na cidade.
O trajecto do autocarro vai ligar instituições científicas, culturais e empresariais, desde a Praça dos Leões, a Cedofeita, passando pelo Campo Alegre, Avenida e Rotunda da Boavista, até ao pólo de Paranhos com circuito a ser definido pelos STCP.

Adicionalmente, a câmara disponibilizou cinco quartos para cientistas estrangeiros em bairros sociais.

A demonstração plena que algo vai mal na cidade, na câmara e nos cientistas do Porto é uma simples comparação com a cidade de Coimbra.
As Câmaras de Coimbra e de Cantanhede entenderam-se entre si e também o conseguiram com o Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC). Desta concertação de esforços surgiu o parque Tecnológico de Cantanhede (http://www.biocant.pt/conceito.aspx).

Como escrever artigos!






Frequentemente lemos artigos com textos ininteligíveis e sem qualquer sumo. Finalmente percebi que esses todos usam o mesmo cardápio para a elaboração dos textos redondos!!!!

Presidenciais



Não existiu pior escolha para o título do site não-oficial de apoio à candidatura de Mário Soares à presidência, uma vez que o famoso jogo da Nintendo não tem mesmo nada a ver com o que lá se escreve. A minha estupefacção cresce de dia para dia, de post para post. Como é possível ser tão destrutível e sobretudo expressar tanto ódio a tudo e contra quase todos? Contra o Cavaco, já era de esperar... Mas contra o Manuel Alegre, companheiro de luta de quase todos os escrevem ali?!
Pelo menos, estão reunidos no mesmo site. Assim, não se dá cabo de mais de uma candidatura.

10.19.2005

"O meu amigo, Rui Mateus"




Para os mais esquecidos que não se querem deixar levar neste torpor, recomendo a leitura de um livro que rapidamente caiu no esquecimento, assim como o seu autor.
O livro intitula-se “Contos proibidos – Memórias de um PS desconhecido”e o seu autor foi Rui Mateus, companheiro de Mário Soares, durante longos anos.


Com o apoio da Nintendo?


Há coisas que nem com o amadurecimento mudam. Depois do slogan "Soares é fixe", eis que surge na blogosfera um site não- oficial de apoio à candidatura de Mário Soares. Este blog chama-se Super Mário .

Sob a égide da Nintendo, encontram-se, democraticamente dispostos por ordem alfabética, nomes como o de Vital Moreira.


Que o circo comece!!



10.18.2005

Sempre atrás dos outros.

Portugal ficou classificado como o 26º país mais transparente, tendo recebido com grandes parangonas esta notícia. Só entendo a receptividade a esta classificação, se nós próprios esperássemos estar para o fim de tabela e tenha causado admiração o nosso “bom” resultado. Mais uma vez nos contentamos por não ficar muito atrás dos outros.
Esta alegria só encontra paralelo no nosso crescimento económico de 0.5% efusivamente anunciado pelo nosso Primeiro-ministro, há uns meses atrás.

Europa politicamente Correcta I



A pluma caprichosa “Clara Ferreira Alves, é uma das minhas leituras obrigatórias, senão a única, no semanário Expresso. Na sua última crónica, denunciou a hipocrisia do politicamente correcto que se vive na Europa.


“Europa minha”

“Os jornais dizem que Rabat está a deportar os subsarianos, despachando-os para o deserto do Sul de Marrocos, um lugar onde nada cresce e nada existe.”....E Marrocos faz isto com a cumplicidade criminosa da Espanha socialista de Zapatero, que assobia para o lado.”...

...“Se estes imigrantes ilegais fossem refugiados políticos de Cuba como os «balseros» correríamos a socorrê-los, a essas vítimas da ditadura comunista.”...

...“ E Marrocos, um país de emigrantes, deporta os «ilegais», imitando a Europa à qual quer um dia pertencer. E em Bruxelas e em Estrasburgo, a Europa preocupa-se com a América e o regulamento dos queijos e manteigas, ou o mercado da banana, ou o Iraque e a Palestina, ou a pena de morte na Turquia, enquanto condena a morrer à fome e à sede no deserto entre Marrocos e a Argélia, milhar e meio de negros algemados.”...

...“A Europa sabe que mais cedo ou mais tarde vai ter de rever a sua política de imigração, a sua política social, a sua política.”...

...“E quanto à Espanha socialista de Zapatero and friends, que acabou a sua cimeira com Marrocos para reforçar as medidas de protecção e expulsão dos «ilegais», a Espanha sempre tão moralista em grandes questões internacionais, estamos conversados. A compaixão acaba em Ceuta e Melilla. E o socialismo também.”

Clara Ferreira Alves in
Expresso, 15 de Outubro de 2005


10.13.2005

O Meu Estado de Espírito

No, Thursday's out. How about never-is never good for you?

Aqui vai um dos meus Cartoons favoritos da NewYorker.
Sim, sim, tal revista que os leitores da Visão conhecem bem!

10.11.2005

Choque Tecnologico II: voto nunca será electrónico





Leia-se no blog Abrupto (www.abrupto.blogspot.com)

“Pergunta-me o meu filho, na sua ingenuidade tecnológica, porque em Portugal não se vota electronicamente? Depois do que se passou hoje, não sei se lhe envio este e-mail, ou se lhe envio uma carta.(AM)”

Em resposta a este mail eu diria que:

  1. Em Portugal se fizeram dois testes de voto electrónico que foram realizados, reza a história, com enorme sucesso e adesão clara dos eleitores. Tudo aliás invulgarmente documentado neste site  www.votoelectronico.pt;  

  2. O actual governo chegou-se à conclusão que não valia a pena testar mais porque as pessoas gostaram (Público 9 de Outubro) Ou será porque não querem pegar numa iniciativa lançada no anterior ciclo político, pela UMIC?;

  3. O tão falado programa “Ligar Portugal” nem sequer faz referência ao Voto Electrónico...;

  4. Por outro lado como se poderiam ter as declarações revigorantes e apelativas de Mário Soares relativamente aos partidos e aos candidatos ( neste último caso, apenas quando concorre o filho)? Como nunca mais se teria a certeza aonde votariam as mais diversas personalidades, os jornalistas não iam gostar e a Comissão Nacional de Eleições nunca mais teria um exemplo vivo e sempre diferente para demonstrar a violação da lei. Mais uma evidência que a lei não é igual para todos. Se fosse o Santana Lopes a defender a eleição de alguém ou do seu partido já teria caído o Carmo e a Trindade. Como é quem é,....

Por estas razões penso que não vamos ter voto electrónico para breve.

Choque tecnológico I




Por esta hora, mais de 14 horas se passaram sobre o fecho das urnas, penso que temos finalmente os resultados de todas as freguesias e concelhos.
O choque generalizado, e de certeza nada tecnológico, atingiu o governo e o primeiro-ministro em particular. Como de costume, para manifestação clara e inequívoca do descontentamento, constituiu-se uma comissão de estudo para averiguar as falhas informáticas.
Cá para mim, e penso não estar muito enganada, com a desculpa da poupança ou pura e simplesmente um ódio de morte ao capitalista Bill Gates e aos seus sucedâneos levaram de uma forma irreflectida ( e a provar-se esta hipótese, precipitada) à mudança dos sistemas operativos. Será que eram Linux???
O que vale é que a Universidade do Minho é pró-linux ....
Sugiro que utilizem o método científico para a análise da causa dos estragos.

Na República do faz de conta





Nas eleições autárquicas, primazia aos irmãos Dalton...
Apenas um dos irmãos não se saiu bem.



10.04.2005

Momentum II

Guerra Civil


E' contra mim que luto
Não tenho outro inimigo.
O que penso
O que sinto
O que digo
E o que faço
E' que pede castigo
E desespera a lança no meu braço
Absurda aliança
De criança
E de adulto.
O que sou é um insulto
Ao que não sou
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou
Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido
Nem convencido
E agrido em mim o homem e o menino


Miguel Torga

Momentum

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

O Estado das Coisas II

Ana Gomes, já nos brindou com várias metáforas interessantes desde o seu regresso de Timor. Num dos seus últimos texto no causa-nossa, aterro, apresenta-nos alguns factos que os jornais e televisão não só não denunciam como ignoram. Ainda bem que existem os blogs e, ao contrário do resto, plurais.



“Beber chá com Khadaffi?

Noticiam os jornais que José Sócrates, o Primeiro Ministro de Portugal, vai amanhã em visita-relâmpago à tenda de Khadaffi, o ditador que mantém o povo líbio e até cidadãos estrangeiros (entre eles, seis enfermeiras búlgaras e um médico cubano condenados à morte), sujeitos a todo o tipo de violações de direitos humanos.
Khadaffi, o governante terrorista que mandou os seus esbirros armadilhar os aviões da UTA e PANAM que explodiram matando centenas de inocentes passageiros e habitantes da vila escocesa de Lockerbie, e que por isso teve o seu país diversos anos refém, sob pesadas sanções do Conselho de Segurança da ONU (que Portugal votou quando lá esteve).
Aparentemente o PM vai em busca de negócios reluzentes, cheirosos a petróleo, pontes e estradas para empresas de Portugal... Faz mais do que fizeram antes, desgostantemente, um MNE do PS, Jaime Gama, e um MNE do PSD, Martins da Cruz (que eu, enquanto Secretária para as Relações Internacionais da mesma direcção do PS a que pertencia José Sócrates, critiquei duramente e voltaria a criticar). Porque José Sócrates não é só MNE: é Primeiro-Ministro e vai com a nutrida companhia dos Ministros da Defesa, da Economia, das Obras Públicas, segundo a imprensa. Tudo, decerto, para melhor cativar o louco terrorista, que passou a ser «respeitável» desde que anunciou desistir do «brinquedo» nuclear que pretendia para as suas macabras diversões.
Não sou adepta do corte de relações diplomáticas com qualquer regime, por mais detestável que seja. O processo de Timor-Leste serviu-me também para aprender que na era da globalização, quanto mais relações houver, quanto mais contactos diplomáticos, comerciais, turísticos, culturais e outros se desenvolverem, mais se pode ajudar quem, sujeito a esses regimes, luta pela mudança e pela liberdade. Mas para isso, para falar se preciso for com o diabo, se fizeram os diplomatas. E para isso também servem as empresas e outros interlocutores ditos técnicos, maxime os ministros das pastas «técnicas». Mas o envio de um MNE e, por maioria de razão, de um Chefe de Governo ou de Estado, transmite um sinal de caução política inegável e indelével. Para quem recebe e sobretudo para quem o emite.
Não venham com a desculpa esfarrapada de que outros já foram também ao beija-mão do criminoso beduíno - nenhum deles irradia decoro ou decência. A começar por Tony Blair (mas a pérfida Albion também nunca se armou em decente, verdade se diga....).
Já se imagina os visitantes que poderão desfilar em Pyongyang proximamente (mas ainda não consta que haja petróleo)! A fila deles seria longa agora em Bagdad, de novo a comer à mão de Saddam, se o torcionário se tem deixado daquela irritante mania de jogar o gato-e-
o- rato a propósito das ADM que afinal não tinha.... Por este andar, se a família Bin Laden conseguir desalojar os Saud em Riade, ainda os haveremos de ver a todos (ou sucessores igualmente invertebrados) em bicha à porta da tenda do «travesso» Ossama, basta que este esboce um ténue acto de contrição....
Dá jeito um Primeiro Ministro perceber alguma coisinha de política externa. Se não percebe, convém que se aconselhe bem - é para isso que servem um MNE e conselheiros diplomáticos. A política externa portuguesa não pode ser ditada apenas por cifrões e por patrões, muito menos chicos-espertos, construam eles estádios de futebol, estradas, plataformas petrolíferas ou vendam telefones ou tapetes.
Portugal não abriu sequer ainda uma embaixada em Tripoli, não tem lá quaisquer estruturas que apoiem empresas ou instituições que tenham alguma coisa a fazer na Líbia. Uma ida à tenda de Khadaffi pelo Primeiro-Ministro neste contexto, ao beija-mão de quem vai, não pode deixar de ser interpretada como um endosso da respeitabilidade política de um ditador terrorista que devia estar preso e a ser julgado por crimes contra a Humanidade.
Não é em meu nome, em nome do meu Portugal, nem do meu PS, que José Sócrates irá à Líbia beber chá com Khadaffi.”


Publicado por Ana Gomes (1 de Outubro de 2005) em

http://causa-nossa.blogspot.com/

O Estado das coisas: Depois não se queixem!!!!

Eleitorado escolhe Valentim Loureiro para Gondomar
TSF online


Tendo ouvido durante a manhã as críticas aos “políticos que nos roubam”, confesso que não entendo esta e outras previsões.
Concluindo e resumindo: temos os políticos que a maioria merece.

“Não há bem que sempre dure, nem mal que se não acabe”



Nem de propósito, encontrei um livro de ditados populares que dedico à quadra que vivemos...




“Mulher que nas juras do marido se fia, chora noite e dia.”

“A quem sabe esperar o ensejo, tudo vem a tempo e a seu desejo”

“Muito custa, o que bem parece”


“De graça, nem os cães vão à caça”








“Coitados os cordeiros quando os lobos querem ter razão.”

“Amigo fiel e Prudente é melhor que parente”


“A cada feira vai um tolo.”

“Com papas e bolos se enganam os tolos”




“2004” Ditados Populares em Temas, Edição de Autor, Coimbra

10.01.2005

O País ao Espelho


José Manuel Fernandes

"Quatro eleições vão mostrar-nos se o problema está mais nos políticos ou nos portugueses que os elegem
As sondagens parecem não deixar lugar para muitas dúvidas. Com a excepção de Isaltino Morais em Oeiras, os candidatos independentes mais controversos parecem ter as vitórias asseguradas, por vezes por maiorias esmagadoras. Valentim Loureiro será reconduzido em Gondomar, Fátima Felgueiras em Felgueiras e Amarante deverá acolher de braços abertos o ainda presidente da câmara de Marcos de Canaveses, Ferreira Torres. Se tal se confirmar, isso dirá muito sobre o país que somos - e sobre o povo que o habita.Quinta-feira, num interessante e informado artigo sobre Portugal, Matthew Kaminski, director das páginas de opinião do The Wall Street Journal Europe, relatava a experiência do seu regresso a Portugal 15 anos depois de uma primeira visita. Significativamente intitulado "Os latinos tristes", o artigo relatava o seu encontro com um país hoje muito diferente e uma Lisboa mais agradável, bem tratada e aparentemente próspera do que a maioria das capitais europeias. Só que... só que temos os problemas que conhecemos na economia por termos crescido sem "aumentar a produtividade ou construir as fundações do desenvolvimento futuro", ao mesmo tempo que o Estado engordava e todos se endividavam porque, como referia citando um antigo ministro das Finanças, "gastamos como alemães mas produzimos como os marroquinos".A mensagem central desse artigo estava contudo no seu último parágrafo, onde o autor dizia acreditar que, apostando no turismo, nos serviços e em sectores como a cortiça ou a indústria de moldes, o nosso país pode encontrar formas de competir num mundo globalizado. Com uma condição: "Ninguém, a não ser os próprios portugueses, são capazes de fazer com que isso aconteça." Ora esses portugueses no dia 9 não vão apenas votar para escolher os seus autarcas, manifestando-se de forma indirecta a favor ou contra as políticas governamentais ou decidindo quem dominará a Associação Nacional de Municípios. Vão também estar a olhar para quatro municípios para perceber até que ponto no país onde vivem há ou não muita gente disposta a esquecer valores essenciais e a beneficiar os infractores em nome de estreitos egoísmos locais. Basta recordar que em Felgueiras concorre uma senhora que é acusada de corrupção passiva, de abuso de poder e de peculato e que andou dois anos e meio fugida à justiça no Brasil; em Amarante um senhor que já foi condenado em tribunal (recorreu), protagoniza cenas tristes nos campos de futebol e até agora dirigia um concelho com alguns dos piores índices de qualidade de vida do país; em Gondomar alguém que é conhecido pela sua grosseria e é suspeito em processos de corrupção no futebol; e em Oeiras quem foi capaz de acumular gordas contas bancárias na Suíça recebendo apenas o seu ordenado de presidente da Câmara e não possuindo fortuna anterior.Num país com uma cultura de seriedade e honradez, nenhuma dessas figuras teria hipóteses, até porque a simples vergonha impedi-las-ia de se candidatarem. Mas num país de esquemas e salve-se quem puder, o que se passar nesses concelhos mostrará o que somos lá no fundo, pois estes concelhos são também uma amostra do país: uns são rurais, outros urbanos; nuns habita sobretudo gente humilde e pouco instruída, um é daqueles onde o nível de rendimento e instrução é mais elevado; uns têm indústria, outros serviços, outros agricultura. É por isso que Portugal e os portugueses vão neles ver-se ao espelho e ficar a conhecer-se melhor. O que é importante: um país é aquilo que o seu povo for e o seu sucesso depende da cultura e dos valores desse povo. Suspeito é que não vamos gostar de nos ver a este espelho."

Público, 1 de Outubro de 2005